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ago
Expresso

O último ato que se conhece de Juan Carlos I foi a carta enviada ao filho Filipe VI, o seu sucessor e atual monarca. Nela, o rei emérito anunciava a decisão de se afastar de Espanha perante a “repercussão pública” de “certos eventos do passado” e com o objetivo de ajudar o filho “a exercer as suas responsabilidades”. Desde então, Juan Carlos encontra-se em parte incerta, apesar dos alegados exílios no Estoril ou na República Dominicana.

Ao que Expresso conseguiu apurar, o rei emérito esteve esta segunda-feira apenas algumas horas em Portugal. Entrou pelo Porto e seguiu viagem para outro destino, que não foi possível confirmar. No dia seguinte, questionado sobre uma eventual presença do antigo rei em solo nacional e o embaraço diplomático que isso representaria, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, começou por declarar que não comentava, mas acabou por ir “mais longe”. As autoridades dominicanas garantem que o antigo monarca não tinha entrado, pelo menos até terça-feira na república caribenha.

OS 65 MILHÕES DE UM ANTIGO MONARCA SAUDITA

O diretor do grupo de reflexão espanhol Civismo, Juan Ángel Soto, recorda que “é preciso recuar quase 90 anos, até Afonso XIII, para se encontrar um caso semelhante de exílio real” no país. “A principal diferença, além de não ser rei emérito como Juan Carlos, é que Afonso XIII foi para o exílio porque o povo lhe falhou, enquanto este o faz porque foi ele quem falhou ao povo”, distingue ao Expresso.

“A decisão de Juan Carlos é a mais razoável tendo em conta o clima político, económico e social. Como já aconteceu com a sua abdicação em 2014, o problema não parece ter sido tanto a ação em si mesma mas o clima que a acompanha”, acrescenta Ángel Soto. Naquela altura, “o clima do momento penalizou em concreto a infame caça no Botswana”, agora “pessoas muito concretas decidiram remexer no seu passado e exigir responsabilidades outrora ignoradas”, diz.

O rei emérito está sob escrutínio por ter recebido pelo menos 65 milhões de euros de um antigo monarca saudita. Aquele montante terá sido escondido na conta de uma fundação num banco da Suíça e doado à ex-amante Corinna Larsen, não sendo incluído em qualquer herança. Apesar da decisão de abandonar Espanha, os seus advogados garantem que o rei emérito continuará a colaborar com a justiça. O Supremo Tribunal espanhol recusou esta quarta-feira o pedido de adoção de medidas cautelares contra Juan Carlos. Os juízes deliberaram que o rei emérito não está a ser investigado e que, por isso, é impossível adotar tais medidas, que tinham sido pedidas pela associação independentista catalã Òmnium Cultural.

O AUTOEXÍLIO “APROFUNDA A DIVISÃO SOCIAL NO PAÍS”

Para o consultor político Alex Comes, “a fuga é uma decisão que debilita o papel da monarquia, uma vez que ele reconhece a fraude que cometeu e não responde perante a justiça como deveria qualquer cidadão espanhol que cometesse o mesmo crime”. O autoexílio “aprofunda a divisão social no país e coloca na agenda mediática o desejo de parte da sociedade de passar de uma monarquia parlamentar para uma república”, assinala ao Expresso. Ainda assim, “continua a não haver uma decisão firme da maioria dos partidos para iniciar os trâmites legislativos necessários para se pôr essa transformação em cima da mesa”.

O presidente do governo regional da Catalunha, Quim Torra, pediu a Filipe VI que abdique por causa da “fuga tolerada” de Juan Carlos, que classificou como “um fugitivo da justiça”. Este é “um caso que deveria envergonhar qualquer democrata” e “põe em causa o compromisso do Governo espanhol – para não falar no de Filipe VI – na luta contra a corrupção”, descreveu. “O regime de Borbón, restabelecido em 1978, está acabado”, sentenciou Torra, assegurando que estará “sempre ao lado dos republicanos espanhóis”, ainda que o seu projeto seja uma “república catalã independente”.

“Creio que infelizmente Espanha já está desagregada em termos sociais e políticos. O que não creio é que este exílio de Juan Carlos contribua para a desagregação territorial do país”, refere o consultor político. Diego Crescente, sócio da MAS Consulting, empresa de referência em assuntos públicos em Espanha, acredita que “pelo menos no curto prazo, a monarquia e, por extensão, a unidade do país saem reforçadas”. “Outra questão é o médio e o longo prazo. Num hipotético futuro de reforma constitucional, a instituição monárquica poderá ser afetada”, admite.

UM “MURO DE CONTENÇÃO” PARA PROTEGER FILIPE VI

Crescente reconhece, no entanto, que “a decisão de abandonar o país pode ser interpretada como um muro de contenção erguido pela monarquia, blindando assim o atual monarca”. No que este consultor não acredita é em “ímpetos republicanos”. “Para se falar nisso, estaríamos a assistir a manifestações nas ruas ou a uma pressão social difícil de gerir e isso não acontece de todo. Tirando um ou outro tweet de dirigentes do Podemos, dificilmente poderemos falar de um movimento social capaz de questionar legitimamente a monarquia”, reforça.

Por outro lado, “tradicionalmente a sociedade espanhola tende a identificarse com um monarca ou um dirigente concreto mais do que com a instituição monárquica”. “Sempre se falou em ‘juancarlismo’ ou até em ‘isabelinos’ em séculos anteriores mais do que nos próprios monárquicos”, aponta Crescente. Para Ángel Soto, “a sociedade espanhola está cada vez mais consciente do caráter instrumental da monarquia”. “Longe de se tratar de uma questão normativa, que tem de ser defendida e protegida a todo o custo, a monarquia é percebida como uma instituição garante do diálogo político, que vela pela estabilidade social e é embaixadora da marca Espanha”, salienta o diretor do grupo de reflexão Civismo.

Quanto ao papel do autoexílio numa desagregação do país, Ángel Soto considera que a decisão de Juan Carlos será cavalgada sobretudo por “movimentos populistas de esquerda e de direita”, uma vez que estes “vivem (e prosperam) precisamente a capitalizar o medo e o ódio”. Nesse sentido, defende, “colocar em causa uma instituição como a monarquia e o seu enfraquecimento contribuirão para a desagregação do país”. No plano nacionalista, “todo o argumento que debilite a qualidade institucional espanhola será usado por quem deseja seguir o caminho da soberania própria”, remata.


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